22 de janeiro de 2026
DEFINIÇÃO
As revisões sistemáticas são estudos secundários que utilizam métodos criteriosos e transparentes para identificar, avaliar criticamente e sumarizar os resultados de estudos primários, propiciando informações de qualidade e de maneira atualizada, acessível e sintetizada. Elas previnem a produção redundante de estudos sobre o mesmo tema e possibilitam a combinação estatística dos resultados de estudos primários semelhantes, produzindo, assim, uma única estimativa com maior precisão do que os resultados de um único estudo (metanálise). Como consequência, quando bem elaboradas, as revisões sistemáticas são poderosas ferramentas empregadas na tomada de decisões em saúde e na formulação de políticas públicas.
ETAPAS DE UMA REVISÃO SISTEMÁTICA
Recomenda-se que as etapas metodológicas de uma revisão sistemática sigam o manual elaborado e disponibilizado pela Cochrane [1]. A Cochrane é uma organização internacional sem fins lucrativos, que tem como objetivo preparar, manter e disseminar revisões sistemáticas e outras sínteses de evidências atualizadas e com a máxima qualidade e transparência em seu desenvolvimento. O Cochrane Handbook for Systematic Reviews of Interventions [1] fornece informações detalhadas sobre cada etapa de uma revisão sobre intervenções em saúde e é utilizado mundialmente. Além disso, para garantir que todas as etapas sejam relatadas na revisão, é importante utilizar o checklist PRISMA 2020 (Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analysis ) [2].
O Quadro 1 apresenta um resumo sobre o planejamento e o processo de condução de uma revisão sistemática.
Quadro 1. Resumo das etapas de uma revisão sistemática.
| 1. Formulação de uma pergunta de interesse Para a escolha do tema da revisão, é preciso identificar uma questão relevante, viável e nova (ou seja, devemos verificar se o tema, de fato, não é respondido com as evidências científicas já disponíveis). O uso de acrônimos pré-estabelecidos facilita a elaboração da pergunta de interesse. Por exemplo, questões sobre intervenções em saúde são elaboradas utilizando-se o acrônimo PICO (População, Intervenção, Comparador(es) e “Outcomes” – Desfechos). Adicionalmente, ao estruturar a pergunta é necessário identificar qual delineamento de estudo primário é o mais adequado para respondê-la. Exemplo: P – pacientes com enxaqueca crônica I – acupuntura C –placebo, nenhum tratamento ou outros tratamentos ativos O – dor, qualidade de vida, eventos adversos, etc. O desenho de estudo mais adequado para questões de intervenção são os ensaios clínicos randomizados. |
| 2. Elaboração do protocolo da revisão O protocolo de uma revisão sistemática contém todas as etapas metodológicas que serão realizadas no estudo e deve ser elaborado antes do início da revisão, assim como deve ser registrado em uma plataforma de registros como a PROSPERO, ou publicado em uma revista científica. Essa ação confere transparência ao processo de desenvolvimento da revisão. |
| 3. Definição dos critérios de inclusão e exclusão dos estudos primários Os critérios de elegibilidade dos estudos primários constam na própria pergunta estruturada de pesquisa (por exemplo, o acrônimo PICO). Em outras palavras, fazem parte dos critérios de elegibilidade o delineamento do estudo primário, aspectos da população a ser estudada, características da intervenção e comparadores, e os desfechos avaliados. |
| 4. Busca na literatura para identificação dos estudos primários Identificar as bases de dados relevantes para o tema e desenvolver estratégias de busca para identificar os estudos primários que preencham os critérios de elegibilidade. Deve-se utilizar bases de dados eletrônicas gerais e específicas ao tema estudado, bases de registros de ensaios clínicos e literatura cinzenta. Além disso, deve-se realizar uma busca manual dos trabalhos referenciados nos estudos primários e, se necessário, estabelecer contato com autores na área. |
| 5. Seleção dos estudos e extração dos dados É recomendado que dois revisores independentes realizem a seleção dos estudos por meio de uma plataforma específica (por exemplo, Rayyan [3]) e que um terceiro revisor resolva as discordâncias. O processo de seleção é feito em duas etapas: seleção por títulos e resumos dos estudos encontrados na busca e eliminação daqueles que não cumprem com os critérios de inclusão, leitura dos textos completos dos estudos considerados potencialmente elegíveis. A extração dos dados dos estudos incluídos na revisão também é realizada por autores independentes, que utilizam um formulário padronizado contendo informações relevantes sobre os estudos. |
| 6. Avaliação do risco de viés dos estudos incluídos A avaliação do risco de viés dos estudos incluídos na revisão é feita por dois autores independentes e um terceiro revisor para resolver as discordâncias. Existem várias ferramentas para essa avaliação a depender da pergunta de interesse e do desenho de estudo incluído. Por exemplo, para avaliar o risco de viés de ensaios clínicos randomizados incluídos em uma revisão, recomenda-se a ferramenta Cochrane (RoB tool) [1]. |
| 7. Síntese qualitativa e quantitativa Uma revisão sistemática fornece um resumo dos dados dos resultados de vários estudos individuais. Tais resultados podem ser sintetizados de maneira descritiva (síntese narrativa) e, para os estudos homogêneos entre si (com o mesmo PICO), é possível realizar uma metanálise (síntese quantitativa) para cada desfecho avaliado. A metanálise é um método estatístico que permite o agrupamento dos resultados de vários estudos homogêneos, fornecendo uma estimativa global do efeito do tratamento. |
| 8. Análises adicionais A fim de testar a robustez dos resultados da síntese quantitativa, é possível realizar as seguintes análises adicionais: Análise de subgrupo: análise planejada para avaliar subgrupos de participantes dos estudos incluídos que apresentem características clínicas capazes influenciar os resultados de uma metanálise. Por exemplo, separar os pacientes em subgrupos com base na idade, na gravidade da doença etc. Análise de sensibilidade: é planejada para avaliar o quão robustos são os resultados para decisões incertas ou suposições sobre os dados e os métodos que foram usados. Por exemplo, excluindo-se da metanálise estudos com alto risco de viés. |
| 9. Avaliação da certeza do conjunto da evidência A certeza do conjunto da evidência obtida em uma revisão sistemática é avaliada pela abordagem GRADE (Grading of Recommendations Assessment, Development and Evaluation) [4]. Essa ferramenta gradua a confiança nos achados de uma revisão para cada desfecho avaliado, em quatro níveis: alta, moderada, baixa e muito baixa. Para revisões de ensaios clínico randomizados, a avaliação é feita considerando-se cinco domínios: risco de viés, inconsistência, evidências indiretas, imprecisão e viés de publicação. |
| 10. Interpretação dos resultados A interpretação correta dos resultados de uma revisão sistemática permite determinar sua aplicabilidade clínica e para pesquisas futuras. |
CONCLUSÕES
Quando conduzidas adequadamente, as revisões sistemáticas são consideradas o nível mais alto de evidência. Vale ressaltar que é fundamental que uma revisão sistemática seja conduzida por um grupo de pesquisadores com domínio clínico, metodológico e estatístico. Apesar das etapas simplificadas apresentadas na tabela acima, realizar uma revisão sistemática é um processo complexo e trabalhoso, que pode levar de 6 meses a 2 anos para ser concluído com êxito.
AUTORES
Versão 1 – 28/07/2022
Amanda Bernardo Medyk Cruz, Amanda Scaff Mendes e Laura Gomes Libório. Alunas da graduação de Medicina da Universidade Metropolitana de Santos (UNIMES).
Ana Luiza Cabrera Martimbianco, MSc, PhD. Professora da Disciplina de Saúde Coletiva na Graduação de Medicina e da Disciplina de Saúde Baseada em Evidências do Programa de Pós-graduação em Saúde e Meio Ambiente da Universidade Metropolitana de Santos (UNIMES).
Versão 2 – 23/01/2026
Daniele Ho, farmacêutica, Disciplina de Medicina Baseada em Evidências, Escola Paulista de Medicina (EPM), Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
Rachel Riera, MD, MSc, PhD. Professora associada, Escola Paulista de Medicina (EPM), Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
CITAR COMO: Medyk AB, Ho D, Mendes AS, Libório LG, Martimbianco ALC, Riera R. Revisões sistemáticas. Estudantes para Melhores Evidências. Publicado em: 23/01/2026. Disponível em: [adicionar link da página da web]. Acessado em [adicionar dia, mês e ano de acesso].
REFERÊNCIAS
- Higgins JPT, Thomas J, Chandler J, Cumpston M, Li T, Page MJ, et al, editor(s). Cochrane Handbook for Systematic Reviews of Interventions version 6.5 (updated August 2024). Cochrane, 2024. Disponível em: www.cochrane.org/handbook. Acessado em 22/01/2026.
- Page MJ, McKenzie JE, Bossuyt PM. et al. The PRISMA 2020 statement: an updated guideline for reporting systematic reviews. Systematic Reviews. 2021;10: 89. Disponível em: https://doi.org/10.1186/s13643-021-01626-4. Acessado em 22/01/2026.
- Mourad Ouzzani, Hossam Hammady, Zbys Fedorowicz, and Ahmed Elmagarmid. Rayyan — a web and mobile app for systematic reviews. Systematic Reviews. 2016;5:210.
- Guyatt G, Oxman AD, Akl EA, Kunz R, Vist G, Brozek J, Norris S, Falck-Ytter Y, Glasziou P, DeBeer H, Jaeschke R, Rind D, Meerpohl J, Dahm P, Schünemann HJ. GRADE guidelines: 1. Introduction-GRADE evidence profiles and summary of findings tables. J Clin Epidemiol. 2011 Apr;64(4):383-94.