27 de fevereiro de 2026
INTRODUÇÃO
Revisão de escopo (do inglês, scoping review) é uma síntese de evidências, proposta inicialmente em 2005 [1], mas que tem incorporado modificações importantes na sua estrutura metodológica desde então [2,3]. Atualmente, o principal guia metodológico para revisão de escopo é mantido pelo Instituto Joanna Briggs [4-6].
OBJETIVOS DA REVISÃO DE ESCOPO
Em algumas situações relacionadas a avaliações clínicas, pode não ser possível fazer perguntas únicas e precisas, principalmente quando o assunto é amplo, abstrato e/ou emergente. Nesse caso, é indicada uma revisão de escopo, ou seja, uma investigação sobre o que se sabe sobre o conceito e como ele é usado, em fontes de evidência primárias. A revisão de escopo é útil para rastrear e antecipar potencialidades das evidências encontradas, apoiando pesquisadores, profissionais da saúde, gestores e formuladores de políticas de saúde [7].
De forma geral, uma revisão de escopo pode ser conduzida com um ou mais dos seguintes objetivos:
- Sumarizar as evidências disponíveis e identificar lacunas de conhecimento para guiar futuras pesquisas [1,6];
- identificar como, por quem e com que finalidade um determinado termo é usado em uma área do conhecimento [8];
- explorar a extensão da literatura [6];
- mapear conceitos, metodologias de estudo ou políticas em uma área [6,8].
- guiar a escolha e a definição da pergunta de interesse mais relevante para uma futura revisão sistemática.
Uma vez identificado o escopo da evidência disponível e como a pesquisa tem sido conduzida sobre um determinado tópico, pode ser recomendada a realização de novos estudos primários ou de uma revisão sistemática com uma pergunta mais precisa e específica [2,8,9].
As principais diferenças entre revisão sistemática e revisão de escopo estão apresentadas no Quadro 1.
Quadro 1. Principais diferenças entre revisão sistemática e revisão de escopo.
| Revisão sistemática | Revisão de escopo | |
| Objetivos [2] | Sintetizar as evidências sobre uma pergunta específica, como os efeitos de uma intervenção, programa ou política; incidência de uma condição; acurácia de um teste; associação entre um fator de exposição e a ocorrência de uma condição etc. | A partir de um tema amplo, abstrato e/ou emergente, deseja-se compilar as evidências disponíveis. O que se sabe sobre o assunto? Como esse conceito está sendo estudado? O que falta explorar sobre o tema? Na revisão de escopo, não é obrigatório fazer análise de risco de viés dos estudos incluídos, uma vez que esse tipo de revisão não busca encontrar a melhor evidência disponível sobre um assunto. |
| Premissa [2] | Parte dos conhecimentos gerados, por isso, em seus resultados, sintetiza as evidências encontradas e analisa-as criticamente | Busca o aperfeiçoamento na área pesquisada, portanto, em seus resultados, explora a extensão da literatura sobre o tema, bem como os limites conceituais. |
| Pergunta de interesse [2, 3, 10] | A pergunta a ser respondida por revisões sistemáticas é específica, utilizando acrônimos como PICO, PIRD e outros. | A pergunta a ser respondida pela revisão de escopo é ampla, buscando entender qual tipo de pesquisa, como é feita, por quem e para quem, utilizando o acrônimo PCC (ver definição adiante). |
| Implicações | Implicações diretas para apoiar guidelines confiáveis para a prática clínica [3,10]. Implicações diretas para estudos primários subsequentes ao identificar lacunas na literatura. | Implicações para a condução de revisões sistemáticas subsequentes. |
ETAPAS DA CONDUÇÃO DE UMA REVISÃO DE ESCOPO
A seguir são apresentadas as etapas para a condução de uma revisão de escopo de acordo com o guia metodológico do Instituto Joanna Briggs [4-6].
1. Protocolo
Da mesma forma que as revisões sistemáticas, as revisões de escopo exigem um protocolo de revisão prévio que delineia objetivos, métodos e planos. Embora mudanças no protocolo sejam mais comuns devido à natureza iterativa da revisão de escopo, estas devem ser justificadas na seção “métodos” do texto final produzido [3,4].
2. Título
O título deve ser objetivo e indicar a “População”, o “Conceito” e o “Contexto” (acrônimo “PCC”) a serem estudados [3,4].
3. Pergunta de interesse/objetivo da revisão
A pergunta de interesse é guiada pelo acrônimo PCC, que corresponde, respectivamente, à população, conceito e contexto, sendo recomendado para construir os objetivos, indicar o escopo do trabalho, delimitar os critérios de elegibilidade de estudos para a revisão [3,4]. O conceito definirá a abrangência do trabalho e pode incluir todos os detalhes necessários como intervenções, desenhos de pesquisa, estruturas, teorias ou classificações [3,4]. O contexto definirá outros elementos que delimitam o escopo da revisão como fatores geográficos, culturais, ou outros fatores específicos do contexto avaliado [3,4].
4. Busca por estudos
A busca de estudos deve ser realizada de forma sistemática, abrangente e estruturada, e consiste em três etapas principais [3,4]:
- Busca inicial em bancos de dados relevantes, também chamada de busca piloto.
- Análise dos resultados encontrados para avaliar palavras-chave que podem ser relevantes para a segunda busca mais abrangente e estruturada. A busca não restringe idioma, ano de publicação, nem status de publicação. A literatura cinzenta também é incluída na busca.
- Busca manual nas listas de referências dos resultados incluídos na triagem.
5. Extração de dados
Todos os estudos encontrados na busca precisam ser considerados em um fluxograma PRISMA adaptado para revisões de escopo, o PRISMA-ScR (Preferred Reporting Items for Systematic reviews and Meta-Analyses extension for Scoping Reviews) (https://www.prisma-statement.org/) indicando quantos foram incluídos e excluídos em cada etapa [3,4].
A extração de dados dos resultados incluídos é flexível e deve considerar todos os dados relevantes para a pergunta de interesse conforme o propósito da revisão [2,11].
6. Relato dos resultados
Para apoiar a elaboração do relato, recomenda-se usar o PRISMA-ScR [12].
7. Síntese
Na síntese, descrevemos os resultados. A síntese de uma revisão de escopo tem caráter narrativo e a estatística empregada é descritiva.
CONCLUSÃO
As revisões de escopo são particularmente úteis quando a literatura é complexa e heterogênea. Esse tipo de estudo visa identificar e mapear sistematicamente a amplitude das evidências disponíveis sobre um determinado tópico, campo, conceito ou questão em contextos específicos, o que requer uma abordagem analítica de diferentes tipos de estudo. A revisão de escopo se coloca como um recurso valioso para guiar futuras revisões sistemáticas e para fornecer informações úteis aos tomadores de decisão sobre a natureza de um conceito e como ele foi estudado na literatura ao longo do tempo.
AUTORES
Versão 1- 12/06/2024
Camila Cruz, Gabriel Cambraia Pereira, Isabella Gonzalez Raposo de Mello, Valéria Gresczeschen, Wilian Martins Guarnieri. Aluno de pós-graduação do Programa de Saúde Baseada em Evidências da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
Rachel Riera. Professora adjunta, Disciplina de Medicina Baseada em Evidências, Escola Paulista de Medicina (EPM), Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
Versão 2 – 27/02/2026
Daniele Ho, farmacêutica, Disciplina de Medicina Baseada em Evidências, Escola Paulista de Medicina (EPM), Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
Rachel Riera, MD, MSc, PhD. Professora associada, Escola Paulista de Medicina (EPM), Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
CITAR COMO: Cruz C, Pereira GC, Mello IGR, Gresczeschen V, Guarnieri W, Ho D, Riera R. Revisão de escopo. Estudantes para as melhores evidências (EME). Postado em: 27/02/2026. Disponível em [link de acesso]. Acessado em [dia, mês e ano].
REFERÊNCIAS
- Arksey H, O’Malley L. Scoping studies: towards a methodological framework. Int J Soc Res Methodol 2005;8:19–32. https://doi.org/10.1080/1364557032000119616.
- Peters MD, Godfrey C, McInerney P, Munn Z, Tricco AC, Khalil H. Scoping reviews. JBI Manual for Evidence Synthesis, JBI; 2024. https://doi.org/10.46658/JBIMES-24-09.
- Peters MDJ, Godfrey CM, Khalil H, McInerney P, Parker D, Soares CB. Guidance for conducting systematic scoping reviews. Int J Evid Based Healthc 2015;13:141–6. https://doi.org/10.1097/XEB.0000000000000050.
- Peters MDJ, Marnie C, Tricco AC, Pollock D, Munn Z, Alexander L, et al. Updated methodological guidance for the conduct of scoping reviews. JBI Evid Synth 2020;18:2119–26. https://doi.org/10.11124/JBIES-20-00167.
- Micah Peters, Zachary Munn, Christina M Godfrey, Patricia Mcinerney. Chapter 11: Scoping reviews. JBI Manual for Evidence Synthesis, JBI; 2020. https://doi.org/10.46658/JBIMES-20-12.
- Tricco AC, Lillie E, Zarin W, O’Brien K, Colquhoun H, Kastner M, et al. A scoping review on the conduct and reporting of scoping reviews. BMC Med Res Methodol 2016;16:15. https://doi.org/10.1186/s12874-016-0116-4.
- Cordeiro L, Baldini Soares C. Revisão de escopo: potencialidades para a síntese de metodologias utilizadas em pesquisa primária qualitativa. BIS Boletim Do Instituto de Saúde 2020;20:37–43. https://doi.org/10.52753/bis.2019.v20.34471.
- Anderson S, Allen P, Peckham S, Goodwin N. Asking the right questions: Scoping studies in the commissioning of research on the organisation and delivery of health services. Health Res Policy Syst 2008;6:7. https://doi.org/10.1186/1478-4505-6-7.
- Munn Z, Stern C, Aromataris E, Lockwood C, Jordan Z. What kind of systematic review should I conduct? A proposed typology and guidance for systematic reviewers in the medical and health sciences. BMC Med Res Methodol 2018;18:5. https://doi.org/10.1186/s12874-017-0468-4.
- Khalil H, Peters M, Godfrey CM, McInerney P, Soares CB, Parker D. An Evidence‐Based Approach to Scoping Reviews. Worldviews Evid Based Nurs 2016;13:118–23. https://doi.org/10.1111/wvn.12144.
- Pollock D, Peters MDJ, Khalil H, McInerney P, Alexander L, Tricco AC, et al. Recommendations for the extraction, analysis, and presentation of results in scoping reviews. JBI Evid Synth 2023;21:520–32. https://doi.org/10.11124/JBIES-22-00123.
- Tricco AC, Lillie E, Zarin W, O’Brien KK, Colquhoun H, Levac D, et al. PRISMA Extension for Scoping Reviews (PRISMA-ScR): Checklist and Explanation. Ann Intern Med 2018;169:467–73. https://doi.org/10.7326/M18-0850.