18 de maio de 2026 

CONTEXTO 

A adesão dos participantes aos tratamentos a eles atribuídos em um ensaio clínico nem sempre é alcançada, e nem todas as medidas planejadas para os desfechos podem ter sido realizadas. Diante de um cenário de adesão incompleta e/ou dados faltantes, os resultados obtidos podem estar enviesados e a validade do estudo comprometida [1-3].  

É desejável que a perda de participantes ou de dados não ocorra, porém, caso aconteça, há algumas estratégias descritas na literatura para lidar com essa questão, cada qual com suas vantagens e limitações. Três estratégias conhecidas são: análise por intenção de tratar (intention to treat), análise por tratamento recebido (as treated) e a análise por protocolo (per protocol). Em um cenário de não conformidades no ensaio clínico, cada uma dessas análises chegará a um resultado diferente e todas apresentam limitações de aplicação e não devem ser consideradas soluções para o problema de não adesão ao tratamento. A abordagem escolhida deve ser detalhadamente descrita nos estudos e os resultados devem ser avaliados criticamente.  

DEFINIÇÃO 

Na análise por intenção de tratar, todos os resultados dos desfechos devem ser analisados de acordo com o tratamento para o qual o paciente foi originalmente randomizado, mesmo que tenham ocorrido desvios no tratamento (não adesão, desistência, troca de grupos, etc) [2].  Desta forma, a comparabilidade (semelhança) entre os grupos é preservada, uma vez que a randomização é mantida [2-4]. Para os ensaios clínicos de superioridade, esta análise é considerada conservadora, pois tende a subestimar o efeito do tratamento quando a adesão ao tratamento não é completa [3]. Este mesmo ponto, em relação a eventos adversos, é visto como uma desvantagem, como veremos a seguir. 

LIMITAÇÕES 

Contudo, deve-se ressaltar que existem limitações e isso deve ser considerado e discutido nos estudos. Apesar de a randomização não ser violada, há introdução de viés de classificação na análise, pois a exposição ao tratamento/intervenção não é corretamente classificada nos indivíduos que não aderiram ao grupo de alocação original [3]. Imagine que, em um ensaio clínico randomizado, um tratamento que está sob investigação tem um efeito benéfico e será comparado com um placebo. Suponha que uma parte dos indivíduos não adere ao seu grupo de alocação, de modo que alguns param o tratamento e outros, do grupo placebo, consigam, de alguma forma, acesso ao tratamento. Neste caso, espera-se que exista uma redução na magnitude do benefício do tratamento sob investigação ao se utilizar a estratégia de análise por intenção de tratar, e por quê? Porque indivíduos que originalmente foram alocados para o grupo de tratamento, quando deixam de recebê-lo, não se beneficiam da intervenção, mas seus dados contribuem para a avaliação desta. Por outro lado, indivíduos que originalmente foram alocados para o placebo, quando têm acesso ao tratamento, se beneficiam deste, mas seus dados contribuem, de fato, para o grupo placebo [3]. 

Seguindo a mesma lógica, outra situação pode ser hipotetizada: suponha que um determinado tratamento cause algum evento adverso e este será comparado com um placebo em um ensaio clínico. Suponha, novamente, que uma parte dos indivíduos não adere ao seu grupo de alocação, de modo que alguns param o tratamento e outros, do grupo placebo, consigam de alguma forma acesso ao tratamento. Neste caso, espera-se que haja uma diminuição na magnitude do evento adverso ao se utilizar a estratégia de análise por intenção de tratar, devido a mesma lógica descrita anteriormente. Neste caso, não se pode dizer que esta é uma abordagem conservadora. Portanto, a subestimativa do efeito do tratamento pode ser uma vantagem e uma desvantagem. 

AUTORES 

Versão 1- 10/08/2021 

Izabel Monteiro Dhyppolito, Cirurgiã-dentista – Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Doutoranda em Saúde Coletiva (área de concentração Epidemiologia) – Instituto de Medicina Social (UERJ) 

Paulo Nadanovsky, Professor Titular do Instituto de Medicina Social da UERJ; Rachel Riera, Professora adjunta, Disciplina de Medicina Baseada em Evidências, Escola Paulista de Medicina (EPM), Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). 

Versão 2- 18/05/2026 

Daniele Ho, farmacêutica, Disciplina de Medicina Baseada em Evidências, Escola Paulista de Medicina (EPM), Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). 

Rachel Riera, MD, MSc, PhD. Professora associada, Escola Paulista de Medicina (EPM), Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). 

CITAR COMO: Dhyppolito IM, Nadanovsky P, Ho D, Riera R. Análise por Intenção de Tratar. Estudantes para melhores evidências. Publicado em 26 de maio de 2026. Disponível em [adicionar link de acesso]. Acessado em [dia, mês e ano]. 

REFERÊNCIAS 

  1. DeMets DL, Cook T. Challenges of Non-Intention-to-Treat Analyses. JAMA. 2019;321(2):145-6.  
  1. Higgins JPT, Thomas J, Chandler J, Cumpston M, Li T, Page MJ, et al, editor(s). Cochrane Handbook for Systematic Reviews of Interventions version 6.5 (updated August 2024). Cochrane, 2024. Disponível em: https://www.cochrane.org/authors/handbooks-and-manuals/handbook/current. Acessado em 18 de maio de 2026. 
  1. Hernan MA, Hernandez-Diaz S. Beyond the intention-to-treat in comparative effectiveness research. Clin Trials. 2012;9(1):48-55.  
  1. Hollis S, Campbell F. What is meant by intention to treat analysis? Survey of published randomised controlled trials. BMJ. 1999;319(7211):670-4.