18 de maio de 2026
CONTEXTO
Perdas de seguimento de participantes ou de dados ao longo de um estudo podem impactar o resultado obtido ao final, pois (i) podem desbalancear os grupos comparados quanto às similaridades de suas características na linha de base e (ii) podem reduzir o poder amostral, considerando o cálculo previamente estimado para identificar uma diferença potencial de efeitos entre os grupos comparados.
DEFINIÇÃO
O viés de atrito é o viés que ocorre quando há perda de seguimento de participantes, modificando o desfecho do estudo [1]. Os resultados do estudo são comprometidos quando as perdas de participantes em cada braço não foram aleatórias, o que acarreta diferenças sistemáticas entre aqueles que saíram e aqueles que permaneceram no estudo [2].
Muitos se equivocam ao acreditar que o viés de atrito ocorre meramente quando a perda numérica de participantes difere entre os dois braços do estudo. Contudo, mais importante do que constatar que houve perda diferencial numérica, é entender a razão que levou à saída dos participantes do estudo. Em um estudo em que houve perdas de seguimento, é fundamental compreender se elas foram decorrentes de covariáveis avaliadas pelo estudo, como o tratamento que cada braço recebeu ou a doença que é tratada, pois perdas por essas razões podem não ser devido ao acaso [2].
Assim, o viés de atrito pode fazer tender a um determinado resultado em detrimento de outro, não pelo real efeito do que é analisado, mas sim pela saída dos participantes [1].
EXEMPLO
Um ensaio clínico randomizado que avalia a melhora de pacientes diagnosticados com depressão de moderada a grave quando comparados a indivíduos sem diagnóstico de depressão, por meio da atividade física. Nessa situação, os participantes do grupo experimental podem apresentar maior dificuldade em realizar o exercício devido a seu quadro clínico e, por isso, podem desistir de participar do estudo ou abandonar. Com essa desistência, pode haver uma supervalorização de um resultado positivo na prática da atividade física e não condizente com a realidade, pelo grupo-controle ter maior aderência e seguimento ao tratamento.
COMO LIDAR COM O VIÉS DE ATRITO
Existem algumas estratégias para analisar os dados de um estudo diante de perdas de dados, como, por exemplo:
- Análise por intenção de tratar: a análise dos desfechos leva em conta os dados de todos os participantes, inclusive aqueles que descontinuaram do estudo e aqueles que não receberam as intervenções como pretendido [2]
- Emprego de métodos estatísticos adequados, como imputação múltipla de dados [2].
COMO PREVENIR VIÉS DE ATRITO
Para evitar o viés de atrito em estudos clínicos, é necessário adotar técnicas que incentivem a permanência dos participantes, como boa comunicação entre equipe e participantes, canais de comunicação efetivos e garantia de relevância do estudo. Além disso, após a conclusão do estudo, é importante analisar cuidadosamente as razões para o atrito e adotar métodos de análise que reduzam o impacto do viés [1,2].
CONCLUSÃO
O fato de frequentemente a perda de participantes não ser aleatória é fundamental para que se entenda o racional do viés de atrito. Se, por exemplo, uma grande quantidade de pessoas do grupo controle perder seguimento no estudo por acreditar que o tratamento não está funcionando, então será difícil comparar a amostra do grupo intervenção com o grupo controle.
Considerando o impacto do viés de atrito na confiabilidade dos resultados, é fundamental que os pesquisadores desenvolvam estratégias para prevenir a perda de participantes. Entretanto, quando não for possível obter um sucesso completo nessa prevenção, deve-se buscar minimizar os prejuízos relativos ao viés de atrito por meio de escolhas apropriadas de análise e métodos de imputação de dados.
AUTORES
Versão 1- 12/05/2023
Amanda da Cruz Santos Vieira, Andressa Gomes Vivas, Gabriel Giovane Souza Santos, Giovana Jacobsen Cobra, Henrique Tadeu Ramos, Isadora Oliveira das Chagas, João Rogério Cipriano Hisbek.
Rachel Riera. Professora adjunta, Disciplina de Medicina Baseada em Evidências, Escola Paulista de Medicina (EPM), Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
Versão 2- 17/12/2025
Daniele Ho, farmacêutica, Disciplina de Medicina Baseada em Evidências, Escola Paulista de Medicina (EPM), Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
Rachel Riera, MD, MSc, PhD. Professora associada, Escola Paulista de Medicina (EPM), Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
CITAR COMO: Vieira ACS, Vivas AG, Santos GGS, Cobra GJ, Ramos HT, Chagas IO, Hisbek JRC, Ho D, Riera R. Viés de atrito. Estudantes para melhores evidências. Publicado em 18 de maio de 2026 Disponível em [adicionar link de acessso]. Acessado em [dia, mês e ano].
REFERÊNCIAS
1. Catalogue of Bias Collaboration, Bankhead C, Aronson JK, Nunan D. Attrition bias. In: Catalogue Of Bias 2017. Disponível em https://catalogofbias.org/biases/attrition-bias/. Acessado em 18 de maio de 2026.
2. Bell ML, Kenward MG, Fairclough DL, Horton NJ. Differential dropout and bias in randomised controlled trials: when it matters and when it may not. BMJ. 2013 Jan 21;346:e8668. doi: 10.1136/bmj.e8668.