27 de abril de 2026 

CONTEXTO 

Em um cenário ideal, os desfechos primários (ou finais) dos ensaios clínicos devem responder a questões que impactem diretamente a vida dos participantes, ou seja, devem ser clinicamente relevantes [1,2,3]. Por exemplo, em um estudo para avaliar a eficácia de um novo medicamento antineoplásico, o desfecho primário poderia ser a cura da doença ou, então, o aumento no tempo de vida do paciente.  

Entretanto, a realização de um ensaio clínico controlado randomizado exige organização, planejamento, investimento financeiro, longo tempo de acompanhamento, grande número de profissionais na equipe, tamanho amostral significativo, além das considerações éticas, que podem restringir a escolha de alguns desfechos. Em alguns casos, essas exigências acabam limitando e até impossibilitando a execução do estudo. Sendo assim, os pesquisadores precisam buscar alternativas que viabilizem a condução do ensaio clínico, reduzindo o número de participantes e o tempo de acompanhamento, ou escolhendo usar os desfechos intermediários no lugar de um desfecho clinicamente relevante, por exemplo [1-6]. 

DESFECHOS INTERMEDIÁRIOS 

Desfechos intermediários (ou substitutos) são medidas que podem ser laboratoriais, fisiológicas ou exames de imagem e são usados como preditores do possível efeito clínico da intervenção avaliada, ou seja, do desfecho final [1,5,7]. Alguns exemplos de desfechos intermediários são:  

  • Valores de pressão arterial e níveis de colesterol sérico usados para predizer a ocorrência de eventos cardiovasculares (desfecho final); 
  • Tamanho tumoral predizendo a sobrevida ou a cura em pacientes oncológicos, 
  • Contagem de linfócitos em pacientes com o vírus da imunodeficiência adquirida (HIV), substituindo a incidência de infecções oportunistas ou outra alteração clínica [1,4]; 
  • Imagens radiográficas para avaliar a progressão da cárie dentária; 
  • Contagem de micro-organismos para avaliação de doença periodontal substituindo a avaliação clínica; 
  • Densidade mineral óssea substituindo a incidência de fraturas em pessoas com osteoporose. 

A escolha de desfechos intermediários pode ser justificada em algumas situações como: minimização dos efeitos colaterais decorrentes da intervenção, aprovação de nova técnica, novo medicamento ou nova alternativa de tratamento e redução no número de pacientes expostos durante o estudo. Além desses, alguns pesquisadores utilizam desfechos substitutos como justificativa para a redução de custos e tempo de execução do estudo [2, 8].  

Para que um desfecho intermediário seja capaz de avaliar de modo adequado o efeito de uma intervenção, é preciso que ele esteja na via causal do desfecho final e seja um preditor do desfecho clinicamente relevante. Porém, para estabelecer uma relação de causalidade é fundamental conhecer de forma profunda o processo de desenvolvimento fisiopatológico da doença. Todavia, em alguns casos, pode haver apenas uma associação e não uma relação de causalidade [2, 5].  Um exemplo clássico do uso incorreto do desfecho intermediário ocorreu nos anos 80, devido estudos que avaliaram o uso de determinados medicamentos antiarrítmicos para regular batimentos cardíacos em pacientes pós-infarto agudo do miocárdio. Presumiu-se que usar antiarrítmicos para controlar os batimentos cardíacos (desfecho intermediário) reduziria a mortalidade (desfecho final). Porém, a longo prazo, verificou-se um número maior de mortes (desfecho final) no grupo que usava o medicamento quando comparado com o grupo que usou placebo. Muitas vidas foram perdidas e colocadas em risco pela utilização desses medicamentos [3,5,9,10]. 

É preciso ter muita cautela na escolha do desfecho substituto, pois nem sempre prediz com acurácia o desfecho clinicamente relevante. De fato, o desfecho intermediário é útil para levantar hipóteses sobre um possível desdobramento clínico, contudo, estudos que avaliam apenas desfechos intermediários, por si só, não devem guiar a conduta clínica [2, 8]. 

Portanto, a escolha de desfechos intermediários e a interpretação de seus resultados devem ser feitas com muito cuidado e avaliando a relação risco-benefício aos pacientes. Sempre que possível, a prática clínica deve basear suas escolhas a partir de estudos que incluíram desfechos clinicamente relevantes.  

AUTORES 

Versão 1- 24/07/2021 

Laís Rueda Cruz, Cirurgiã-dentista pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e doutoranda em Odontologia pela Universidade do Estados do Rio de Janeiro (UERJ). 

Luís Eduardo Fontes, professor titular da Disciplina de Urgência e Emergência da Faculdade de Medicina de Petrópolis. Rachel Riera, Professora adjunta, Disciplina de Medicina Baseada em Evidências, Escola Paulista de Medicina (EPM), Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). 

Versão 2- 27/04/2026 

Daniele Ho, farmacêutica, Disciplina de Medicina Baseada em Evidências, Escola Paulista de Medicina (EPM), Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). 

Rachel Riera, MD, MSc, PhD. Professora associada, Escola Paulista de Medicina (EPM), Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). 

CITAR COMO: Cruz LR, Fontes LE, Ho D, Riera R. Desfechos finais e intermediários em ensaios clínicos. Estudantes para melhores evidências. Publicado em 27 de abril de 2026. Disponível em [adicionar link de acesso]. Acessado em [dia, mês e ano]. 

REFERÊNCIAS  

  1. Pannuti CM, Sendyk DI, GraCas YTD, Takai SL, SabOia VPA, Romito GA, et al. Clinically relevant outcomes in dental clinical trials: challenges and proposals. Braz Oral Res. 2020;34 Suppl 2:e073.  
  1. Pedrazzi V, Figueiredo FAT, Adami LE, Furlaneto F, Palioto DB, Messora MR. Surrogate endpoints: when to use and when not to use? A critical appraisal of current evidences. Braz Oral Res. 2020;34 Suppl 2:e074.  
  1. Mendes FM, Braga MM, Passaro AL, Moro BLP, Freitas RD, Gimenez T, et al.  How  researchers  should  select  the  best  outcomes  for  randomised  clinical  trials  in  paediatric dentistry? Int J Paediatr Dent. 2020;31 Suppl 1:23-30.  
  1. Fleming TR, DeMets DL. Surrogate end points in clinical trials: are we being misled? Ann Intern Med. 1996;125(7):605-13.  
  1. Coutinho MSSA. Surrogate and relevant clinical endpoints. What are they and how to interpret them?] Rev Bras Hipertens. 2002 Jan/Mar;(1):24-8.  
  1. Prentice RL. Surrogate endpoints in clinical trials: definition and operational criteria. Stat Med. 1989;8(4):431-40.  
  1. Weintraub WS, Luscher TF, Pocock S. The perils of surrogate endpoints. Eur Heart J. 2015;36(33):2212-8.  
  1. Svensson S, Menkes DB, Lexchin J. Surrogate outcomes in clinical trials: a cautionary tale. JAMA Intern Med. 2013;173(8):611-2.  
  1. Robb MA, McInnes PM, Califf RM. Biomarkers and Surrogate Endpoints: Developing Common Terminology and Definitions. JAMA. 2016;315(11):1107-8. 
  1. Connolly SJ. Use and Misuse of Surrogate Outcomes in Arrhythmia Trials. Circulation. 2006;113(6). Disponível em:. https://doi.org/10.1161/CIRCULATIONAHA.105.600668. Acessado em 27 de abril de 2026.