22 de janeiro de 2026 

INTRODUÇÃO 

É frequente observarmos interpretações equivocadas de resultados de estudos e conclusões baseadas apenas em valores de p. Para interpretar adequadamente os resultados de estudos e utilizá-los para apoiar a tomada de decisão, é fundamental entender o que significam o valor de p e o intervalo de confiança das estimativas de efeito apresentadas. 

valor de p indica se podemos ou não afastar a hipótese nula, ou seja, se há diferença entre o grupo comparador e o grupo de intervenção. Quando o valor de p é menor que 0,05, podemos afastar, com segurança, a hipótese nula. O valor de p não diz, no entanto, qual a magnitude da diferença observada entre o grupo controle e o grupo da intervenção e muito menos se essa diferença é clinicamente relevante [1,2]. Para saber mais sobre o valor de p, acesse: https://emeblog.org/valor-de-p/ [3]. 

intervalo de confiança de 95% (grau de confiança mais utilizado na área da saúde) é um conjunto de valores, derivados de estatísticas de amostras, que representa um intervalo numérico do qual, com 95% de confiança, o verdadeiro valor da população não pode ser afastado [1,2].  O IC 95% permite avaliar não apenas a precisão de estimativa, mas a magnitude (tamanho) do efeito, e possibilita discussões em torno da relevância clínica dos resultados.  

EXEMPLO 

Para exemplificar, um ensaio clínico hipotético comparando o medicamento ‘covidina’ versus placebo para adultos com Covid-19 mostrou uma redução da duração da doença com o uso de ‘covidina’, com valor de p = 0,01. Considerando apenas o valor de p apresentado, poderíamos inferir que houve diferença ‘estatisticamente significativa’ a favor da ‘covidina’, mas não seria possível saber o tamanho desta redução, o que limitaria discussões sobre a relevância clínica desta estimativa e sobre a sua aplicabilidade na prática.  No entanto, se além do valor de p, o intervalo de confiança também fosse apresentado, isso seria possível.  

Voltando ao ensaio clínico hipotético. Além do valor de p, os autores apresentaram agora a medida resumo para o desfecho ‘duração da doença’: uma diferença de médias de -0,5 dias, com intervalo de confiança = -0,3 a -0,7. Ou seja, os pacientes que receberam a intervenção tiveram, em média, 0,5 dias a menos de duração de doença que os pacientes do grupo comparador. O intervalo de confiança nos informa, ainda, que esse valor pode variar de 0,3 a 0,7 dias, na prática. Note que os valores do intervalo de confiança não cruzam o número ‘0’ (linha do efeito nulo para a medida ‘diferença de médias’), o que significa que podemos afastar a hipótese nula. Percebam, portanto, que podemos afastar ou não a hipótese nula apenas conhecendo o intervalo de confiança, sem necessidade de conhecer o valor ‘p’.   

RELEVÂNCIA CLÍNICA 

Contudo, há relevância clínica? A partir dos dados apresentados, é possível afirmar que, apesar de haver precisão na estimativa (intervalo de confiança estreito) e diferença ‘estatisticamente significativa’, a relevância clínica do uso de ‘covidina’ na prática é passível de discussão. Isso ocorre pois, os limites do intervalo de confiança (0,3 a 0,7 dias) podem ter ou não impacto na saúde da população, dependendo do orçamento, da existência de outras opções terapêuticas etc.  

Em suma, assim como ter ‘significância estatística’ não implica necessariamente em relevância clínica, também é possível que casos em que não se verificou significância estatística possam, sim, ter relevância clínica. A interpretação deve considerar a análise dos valores do intervalo de confiança e do contexto social, econômico e em saúde. 

 
Figura 1, de caráter exclusivamente didático e sem respeitar escalas, apresenta os resultados (riscos relativos e respectivos IC 95%) de cinco ensaios clínicos hipotéticos (A, B, C, D e E) comparando o efeito da ‘covidina’ versus placebo no risco de hospitalização entre pacientes com Covid-19.   O Quadro 1 apresenta a interpretação adequada dos resultados de cada estudo. 

     Figura 1. Resultados dos riscos relativos de cinco ensaios clínicos hipotéticos. 

Quadro 1.  Interpretação adequada dos resultados de cada estudo. 

Estudo Interpretação do valor de p Interpretação do IC 95%  
Hipótese nula não pode ser afastada  Intervalo amplo  

Inclui valores compatíveis tanto com o aumento do risco de hospitalização (RR>1), quanto com a ausência de efeito da ‘covidina’ (RR=1).  

No melhor cenário, a ‘covidina’ não altera o risco de hospitalização quando comparada ao placebo; no pior cenário, a ‘covidina’ aumenta este risco em 4 vezes.   
Hipótese nula pode ser afastada com segurança Intervalo amplo  

Inclui valores compatíveis tanto com o aumento pequeno quanto com o aumento expressivo do risco de hospitalização com o uso da ‘covidina’  

No melhor cenário, a ‘covidina’ aumenta em 10% o risco de hospitalização quando comparada ao placebo; no pior cenário, o uso de ‘covidina’ aumenta este risco em 9 vezes  
Hipótese nula não pode ser afastada  Intervalo estreito  

Inclui valores compatíveis tanto com a redução (RR<1), com a ausência de efeito (RR=1) ou com aumento do risco de hospitalização (RR>1).  

No melhor cenário, o uso de ‘covidina’ reduz o risco de hospitalização em 20%; no pior cenário, o uso de ‘covidina’ aumenta este risco em 10%.  
Hipótese nula pode ser afastada com segurança  Intervalo estreito  

Inclui apenas valores compatíveis com redução expressiva do risco de hospitalização com o uso da ‘covidina’.  

No melhor cenário, o uso de ‘covidina’ reduz em 80% o risco de hospitalização quando comparada ao placebo; no pior cenário, o uso de covidina’ reduz este risco em 60%.  
Hipótese nula não pode ser afastada  Intervalo amplo 

Inclui valores compatíveis com o aumento do risco de hospitalização (RR>1), com a ausência de efeito (RR=1) ou com a redução do risco de hospitalização (RR<1) com o uso da ‘covidina’  

No melhor cenário, a ‘covidina’ reduz em 90% o risco de hospitalização quando comparada ao placebo; no pior cenário, a covidina’ ‘aumenta este risco em 3 vezes. 

Assim, além de ajudarem na distinção entre o cenário de ausência de evidência e o cenário de ausência de efeito [1,2], o conhecimento conceitual e a adequada interpretação do intervalo de confiança são componentes fundamentais para a prática clínica baseada em evidências.  

CONCLUSÕES 

Significância estatística não é sinônimo de relevância clínica e é importante que os estudos apresentem, além do valor de p (sua apresentação, inclusive, é discutível) as estimativas de tamanho de efeito das medidas-resumo e seus respectivos IC pois estas informações nos permitem entender a magnitude do efeito observado e discutir sobre sua relevância clínica e aplicabilidade. 

AUTORES 

Versão 1- 20/10/2022 

Alex Sandro Moreira Fragoso de Oliveira e Cassiano Pereira de Barros. Estudantes de graduação do curso de Medicina, Escola Paulista de Medicina (EPM), Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Membros da Liga Acadêmica de Medicina Baseada em Evidências, Escola Paulista de Medicina (EPM), Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) 

Rachel Riera. Professora adjunta, Disciplina de Medicina Baseada em Evidências, Escola Paulista de Medicina (EPM), Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).   

Versão 2- 23/01/2026 

Daniele Ho, farmacêutica, Disciplina de Medicina Baseada em Evidências, Escola Paulista de Medicina (EPM), Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). 

Rachel Riera, MD, MSc, PhD. Professora associada, Escola Paulista de Medicina (EPM), Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). 

CITAR COMO: de Oliveira ASMF, Barros CP, Riera R. Intervalo de confiança. Postado em: 23/01/2026. Estudantes para Melhores Evidências. Disponível em: [adicionar link da página da web]. Acessado em [adicionar dia, mês e ano de acesso]. 

REFERÊNCIAS 

  1. Pacheco RL, Fontes LES, Martimbianco ALC, Riera R. Better understanding of ‘don’t confuse absence of evidence with evidence of absence’. J Évid-Based Healthc. 2019;1(2):99-102. doi: 10.17267/2675-021 Xevidence.v1i2.2348 
  1. Alderson P. Absence of evidence is not evidence of absence. BMJ. 2004 Feb 28;328(7438):476-7. doi: 10.1136/bmj.328.7438.476. PMID: 14988165; PMCID: PMC351831. 
  1. Cavalcante PHM, Ho D, Ramos PVG, Pereira VD, Tralli Silva AO, Pacheco RL, Riera R. Valor de p. Publicado em 21/01/2026. Estudantes para as melhores evidências (EME). Disponível em: https://emeblog.org/valor-de-p/. Acessado em 22 de janeiro de 2026.