21 de janeiro de 2026 

O ensaio clínico randomizado (ECR) é um desenho de estudo considerado o padrão metodológico de excelência quando a pergunta de pesquisa se relaciona ao efeito de uma intervenção, e seus resultados geralmente são mais confiáveis do que aqueles obtidos com estudos observacionais [1]. O diferencial de um ECR resulta principalmente da randomização que, quando realizada de modo correto, minimiza o risco de viés de seleção.  

A randomização é o aspecto central dos ECR, porém continua sendo, muitas vezes, um processo pouco compreendido. A randomização depende de duas etapas distintas: (i) a geração da sequência de alocação (randomização) e (ii) a manutenção do sigilo da alocação. 

GERAÇÃO DA SEQUÊNCIA DE ALOCAÇÃO (RANDOMIZAÇÃO) 

A randomização tem como objetivo designar os participantes elegíveis em grupos, com base em uma abordagem aleatória. A geração da sequência de randomização correta leva pouco tempo e esforço, porém é um dos fatores que promove maior credibilidade aos resultados dos ECR. Os pesquisadores empregam diversos métodos para gerar essa sequência, sendo os mais frequentes descritos a seguir [1]. 

  1. Métodos com baixo risco de viés (IMPREVISIBILIDADE):  
  • Tabela de números aleatórios impressas em livros de epidemiologia ou estatística 
  • Softwares geradores de tabela de números aleatórios 
  • Sorteio com reposição 
  • Lançamento de moeda, sorteio de cartas e lançamento de dados. 

De modo geral, para identificar um método adequado de randomização, são feitas duas perguntas (premissas): 

(1) É impossível prever para qual grupo de intervenção o próximo participante será alocado? A resposta dever ser sim.  

Considere um estudo que adotou a randomização por dia da semana, e no qual os participantes atendidos às segundas, quartas e sextas recebem a intervenção A e os participantes atendidos às terças, quintas e sábados recebem a intervenção B. Neste exemplo, há previsão. 

(2) Todos os participantes tiveram a mesma probabilidade de serem alocados em qualquer um dos grupos de intervenção? A resposta dever ser sim.  

Considere um estudo que adotou a randomização por dia da semana, e no qual os participantes atendidos às segundas, quartas e sextas recebem a intervenção A e os participantes atendidos às terças, quintas e sábados recebem a intervenção B. Os participantes atendidos às segundas têm 100% de probabilidade de receber a intervenção A e 0% de receber a B; enquanto os participantes atendidos às terças têm 100% de probabilidade de receber a intervenção B e 0% de receber a B, levando a diferentes probabilidades. Considere, ainda, um estudo que adotou a randomização por sorteio sem reposição, no qual 100 participantes, conforme vão sendo incluídos no estudo, recebem a letra A ou B tiradas de uma sacolinha que contém 50 letras A e 50 letras B. O primeiro participante tem 50% de probabilidade de receber a intervenção; já para os participantes subsequentes, esta probabilidade varia conforme os sorteios anteriores.  

Para além do método utilizado para gerar a sequência de alocação, há tipos diferentes de randomização que são adotados para algumas situações particulares, como descrito a seguir. 

  • Randomização simples: apesar de ser a abordagem mais básica para a geração de randomização, é o método que mais conserva a imprevisibilidade e previne o viés. Cada novo participante é alocado, aleatoriamente, para um determinado grupo. Contudo, este processo, mesmo bem conduzido, tem o potencial de gerar grupos com número de participantes diferentes ou com fatores prognósticos desequilibrados, principalmente se a amostra for pequena e heterogênea, ou pelo simples efeito do acaso.  
  • Randomização em bloco: em casos de amostras pequenas, é possível evitar desequilíbrio na quantidade de participantes em cada grupo por meio da randomização em bloco. Nesse método, os participantes são organizados em blocos de tamanhos predeterminados e semelhantes entre si e, em seguida, os participantes serão alocados aleatoriamente em cada braço do estudo. Por exemplo, em um bloco de sete, três participantes serão alocados aleatoriamente para um grupo e os quatro restantes, para outro. O indicado é que os blocos sejam grandes e com número ímpar de componentes, para evitar quaisquer tentativas de dedução de alocação por parte do investigador [1]. 
  • Randomização estratificada: ainda considerando uma amostra pequena de participantes, o método de randomização em estratos evita disparidades em relação às características prognósticas dos participantes alocados em cada braço. Muitas vezes, são identificadas características prognósticas importantes que, se não estiverem proporcionalmente alocadas, podem influenciar nos efeitos e resultados das intervenções. Nesse caso, os pesquisadores devem especificar previamente quais são estas características e, com base nelas, organizar os participantes em estratos, sendo que, dentro desses estratos, a randomização é realizada aleatoriamente [1]. 
  1. Métodos com alto risco de viés (PREVISIBILIDADE): 
  • Minimização: em um cenário em que a quantidade de participantes é pequena, teme-se que haja um desbalanço entre as características prognósticas de cada braço do estudo. Na randomização por minimização, os pacientes são divididos de modo a ter um equilíbrio entre características prognósticas, contudo, diferentemente da randomização por estratos, essa divisão não ocorre por meio de aleatorização. Por exemplo, ao perceber que há mais pacientes com determinada característica no braço da intervenção do que no braço do controle, o próximo paciente que apresentar essa característica vai ser necessariamente alocado no braço do controle, a fim de atingir um equilíbrio. Por não aleatorizar, a minimização não é considerada um método adequado de alocação de pacientes.    
  • Quasi-randomização: por dia de semana, por número de prontuário, alocação alternada, sorteio sem reposição, etc. 
  • Não-randomização: escolha do paciente ou do médico, por resultado de exames, por disponibilidade, por conveniência. 

MANUTENÇÃO DO SIGILO DE ALOCAÇÃO  

A randomização adequada fundamenta-se no sigilo de alocação correto. Sem esta etapa, mesmo sequências de alocação feitas com base no acaso podem ser subvertidas [2,3]. A sequência de randomização gerada deve ser ocultada de todos os envolvidos até que os participantes tenham sido alocados de modo irreversível em seus respectivos grupos, para que não haja risco de manipulação da sequência de alocação gerada pela randomização. 

Algumas dúvidas são frequentes entre pesquisadores ao se tratar do sigilo de alocação. O primeiro fator importante a ser esclarecido é que o sigilo de alocação é uma técnica para implementar a sequência gerada na fase anterior (randomização) [2]. Outro ponto importante passível de confusão é a diferença entre o mascaramento e o sigilo de alocação [3] (Quadro 1).  

Quadro 1. Diferença entre sigilo de alocação e mascaramento. 

SIGILO DE ALOCAÇÃO MASCARAMENTO 
É realizado antes do início do estudo, durante a alocação de participantes aos grupos. É realizado durante o estudo, permitindo aos participantes e pesquisadores saberem ou não a qual grupo estão alocados. 
Visa reduzir o viés de seleção. Visa reduzir os vieses de desempenho e detecção. 
É possível (e recomendado) ser realizado em todos os ensaios clínicos. Não é possível ser realizado em todos os ensaios clínicos, principalmente quando intervenções de naturezas diferentes são comparadas (por exemplo, cirurgia versus medicamento). 

A melhor forma de minimizar o risco de viés de seleção é a implementação adequada do sigilo de alocação. O ser humano tem a tendência de tentar descobrir as coisas, propositalmente ou não, até com a boa intenção de ajudar os participantes dos estudos. Dessa forma, aqueles que projetam as maneiras de realizar o sigilo de alocação devem utilizar todas a técnicas possíveis para evitar que a sequência de alocação seja identificada e assim modificada considerando um fator que não seja ao acaso. A decisão de incluir um participante no estudo deve ser baseada no consentimento informado e no desconhecimento de sua designação [2]. 

Como já foi dito, existem alguns métodos que são aceitos e utilizados para a determinação do sigilo, destacam-se a central telefônica, softwares especializados, alocação por farmácia ou a utilização de envelopes opacos, selados e numerados sequencialmente, que são abertos somente depois da determinação do participante alocado a ele. 

RECOMENDAÇÕES PARA A PRÁTICA 

Os ECR possuem alta credibilidade para a prática clínica baseada em evidências, principalmente devido à alocação aleatória e imprevisível dos participantes. Ensaios clínicos com geração de randomização ou sigilo de alocação inadequados podem apresentar resultados equivocados, em sua maioria com efeito superestimado, o que reduz a confiança para o uso dos resultados na tomada de decisão clínica [4]. 

Inicialmente, é importante que a sequência de alocação seja gerada com base em um procedimento aleatório e imprevisível. Depois, a implementação desse modelo deve ser garantida por meio de um mecanismo de sigilo que impeça trapaças, mantendo desconhecido o padrão de alocação antecipadamente. 

Os autores dos ECR devem se atentar aos responsáveis pelo processo de randomização. É importante que estas pessoas não estejam envolvidas em nenhuma outra etapa do estudo, principalmente por invalidar todo o processo de sigilo [4]. Se essa mesma pessoa fizer parte da determinação de elegibilidade, administração do tratamento ou avaliação de resultado, esse indivíduo terá acesso ao programa de alocação, podendo introduzir viés ao ECR. 

Além disso, os responsáveis pelo processo de randomização precisam estar cientes de que, caso haja oportunidades, as pessoas irão, por diversos motivos, tentar subverter as etapas do processo de randomização. Assim, as oportunidades para que isso ocorra devem ser eliminadas, ou pelo menos dificultadas. Um exemplo:  a certeza de que os envelopes estão selados, opacos e numerados. 

Frequentemente, mesmo com todo o cuidado na randomização e no sigilo de alocação, os pesquisadores conseguem decifrar as atribuições de maneira prévia [4]. Na maioria dos casos, entretanto, essa descoberta é resultado da falta de conhecimento sobre a importância da randomização por parte dos próprios pesquisadores. Dessa forma, uma maneira de evitar essa fonte de viés seria uma maior educação sobre a lógica e importância que tais procedimentos sejam feitos de modo correto. 

CONCLUSÕES 

É essencial que o relato de todo o processo seja feito de maneira completa e clara, para que os leitores possam avaliar criticamente o estudo e tomar suas próprias decisões. Quando realizados de maneira apropriada, a geração de randomização e o sigilo de alocação proporcionam menor risco de viés de seleção e uma maior segurança e confiança nos resultados do ECR, o que é importante para o uso das evidências geradas por ele para a tomada de decisão clínica.  

AUTORES 

Versão 1 – 22/10/2021 

Giovanna Marcílio Santos, aluna da Universidade Metropolitana de Santos (UNIMES) 

Luís Eduardo Fontes, professor titular da Disciplina de Urgência e Emergência da Faculdade de Medicina de Petrópolis.   

Rachel Riera. Professora associada, Disciplina de Medicina Baseada em Evidências, Escola Paulista de Medicina (EPM), Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). 

Versão 2 – 21/01/2026 

Daniele Ho, farmacêutica, Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).  

Rachel Riera. Professora associada, Disciplina de Medicina Baseada em Evidências, Escola Paulista de Medicina (EPM), Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). 

CITAR COMO: Santos GM, Ho D, Fontes LE, Riera R. Randomização e sigilo de alocação. Postado em 21/01/2026. Estudantes para Melhores Evidências. Disponível em: [adicionar link da página da web]. Acessado em: [adicionar dia, mês e ano de acesso]. 

REFERÊNCIAS 

  1. Schulz KF, Grimes DA. Generation of allocation sequences in randomised trials: chance, not choice. Lancet. 2002 Feb 9;359(9305):515-9. doi: 10.1016/S0140-6736(02)07683-3.  
  1. Schulz KF, Grimes DA. Allocation concealment in randomised trials: defending against deciphering. Lancet. 2002 Feb 16;359(9306):614-8. doi: 10.1016/S0140-6736(02)07750-4. 
  1. Altman DG, Schulz KF. Statistics notes: Concealing treatment allocation in randomised trials. BMJ. 2001 Aug 25;323(7310):446-7. doi: 10.1136/bmj.323.7310.446. 
  1. Schulz KF. Subverting randomization in controlled trials. JAMA. 1995 Nov 8;274(18):1456-8.