18 de maio de 2026
CONTEXTO
Revisões sistemáticas são consideradas os desenhos de estudo mais adequados para apoiar guias de prática clínica e a tomada de decisão e têm contribuído para a redução da lacuna “conhecer-fazer” (know-to-do gap) [1,2].
No entanto, para cumprir estes papeis, uma revisão sistemática precisa [3]:
- abordar questões que ainda não foram respondidas de forma apropriada – para isso, é preciso certificar que já não existem revisões recentes sobre a mesma questão, evitando redundância de publicações;
- ser metodologicamente robusta – para isso, o desenvolvimento de métodos para aumentar a qualidade, reduzir o risco de viés e a incerteza tem sido contínuo;
- apresentar buscas atualizadas;
- ser relatada de modo adequado.
No entanto, manter a busca de uma revisão sistemática atualizada é um desafio e a literatura mostra que [4,5,6]:
- o tempo entre a data da busca e a publicação da revisão é geralmente superior a um ano;
- o tempo médio entre a publicação do estudo primário e a publicação da revisão varia entre 2,5 e 6,5 anos;
- uma minoria das revisões sistemáticas é atualizada dentro de dois anos após a publicação;
- em dois anos após a publicação, 23% das revisões que não foram atualizadas terão deixado de incorporar novas evidências que alterariam substancialmente suas conclusões.
Adicionalmente, outros fatores tornam o processo de atualização de revisões sistemáticas ineficiente [7]:
- a abordagem atual para a atualização de uma revisão sistemática se concentra na identificação daquelas que mais necessitam de atualização – isso minimiza o problema, mas não consegue controlar a imprecisão causada pelas revisões desatualizadas.
- é frequentemente difícil formar uma equipe de autoria para completar atualizações prioritárias;
- a publicação de atualizações leva muitos meses – neste período a revisão permanece desatualizada e, portanto, potencialmente imprecisa.
Assim, há muitas revisões sistemáticas que estão e permanecerão desatualizadas e imprecisas. Os avanços na atualização das revisões sistemáticas tradicionais dificilmente levarão a melhoras substanciais e sustentadas considerando um contexto do crescimento exponencial no volume de estudos primários e na quantidade de revisões publicadas [7].
DEFINIÇÃO
É uma revisão sistemática continuamente atualizada, incorporando novas evidências à medida que elas se tornam disponíveis [8]. Também são definidas como sínteses on-line, de alta qualidade, de estudos em saúde, atualizadas à medida que novas pesquisas se tornam disponíveis, e que são possibilitadas por um processo de produção eficiente e pela adesão às normas de comunicação acadêmica [1].
É importante entender que a revisão sistemática viva não substitui os métodos existentes de revisões sistemáticas tradicionais, mas acrescenta, e é particularmente relevante para alguns cenários.
REVISÃO SISTEMÁTICA TRADICIONAL VERSUS REVISÃO SISTEMÁTICA VIVA
O Quadro 1 apresenta os principais tópicos nos quais as abordagens de cada revisão se diferem.
Quadro 1. Principais diferenças entre revisões sistemáticas tradicionais e vivas
| RS TRADICIONAL | RS VIVAS | |
| Formato de publicação | Estático, artigo publicado. | Dinâmico, contínuo e on-line |
| Processos de trabalho | Esforço intenso e esporádico. Estratégia de busca pontual, resultados alimentam pontualmente um fluxo de trabalho temporário, com extração de dados, avaliação da qualidade, metanálises e relato final. | O esforço é contínuo. Estratégia de busca pode ser atualizada continuamente. Periodicamente, avalia-se a eligibilidade de novos estudos sobre o tema, cujos resultados determinam o fluxo de trabalho, que inclui extração de dados, avaliação da qualidade, metanálises e relato final. |
| Gestão da equipe de autores | Gestão de reposta pontual Coordenação do time por período relativamente curto, e mudança da equipe não é tão frequente. | Gestão de resposta contínua Fluxo de trabalho contínuo, coordenando esforços durante longos períodos e permitindo mudança da equipe, mas mantendo a memória institucional |
| Métodos estatísticos | Cuidado padrão Análise frequentista e sequencial | Maior cuidado com erros Análises mais frequentes – maior risco de erros |
Traduzido e adaptado de Elliot et al (2014) [1].
QUANDO FAZER UMA REVISÃO SISTEMÁTICA VIVA
Revisões sistemáticas vivas podem ser realizadas de modo rotineiro, mas em alguns cenários específicos, elas são ainda mais necessárias:
- quando a certeza da evidência ainda é limitada;
- quando a área temática está em rápida evolução em termos de condução de estudos primários;
- em um cenário BANI/FANI (Quadro 2)
Quadro 2. Adaptação do acrônimo BANI/FANI no contexto da pesquisa
| BANI (inglês) | FANI (português) | Definição |
| B – Brittle | F – Frágil | Fragilidade do conhecimento – incerteza. |
| A – Anxious | A – Ansioso | Necessidade de respostas com urgência. |
| N – Non-linear | N – Não linear | Pequenas decisões podem ter consequências imprevisíveis e desproporcionais. Uma pergunta/resposta que é relevante hoje pode não ser amanhã. |
| I -Incomprehensible | I – Incompreensível | Trata-se da dificuldade de compreender e encontrar respostas. Novas doenças, intervenções e prognósticos surgem a todo momento, assim como novos impactos na saúde individual e coletiva. Além disso, continuamente, somos expostos a uma grande quantidade de informações, mas elas não necessariamente facilitam nossa compreensão sobre o assunto. |
Traduzido e adaptado de CASCIO (2020) [9]
PLANEJAMENTO, CONDUÇÃO E RELATO
Para planejar, conduzir e relatar uma revisão sistemática viva, os seguimte guias e materiais são sugeridos:
- Planejamento e condução: Guidance for the production and publication of Cochrane living systematic reviews [10].
- Relato: PRISMA LSR – PRISMA extension For Living Systematic Reviews (https://www.equator-network.org/) [8].
Em resumo, as revisões sistemáticas vivas, são um novo esforço para produzir evidências confiáveis e atualizadas, visando o objetivo de embasar decisões práticas.
AUTORES
Versão 1- 14/10/2022
Isabella Ferreira Ribeiro, aluna de graduação da Escola Paulista de Medicina (EPM), Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
Rachel Riera. Professora adjunta, Disciplina de Medicina Baseada em Evidências, Escola Paulista de Medicina (EPM), Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
Carolina de Oliveira Cruz Latorraca, Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina (SPDM).
Versão 2- 18/05/2026
Daniele Ho, farmacêutica, Disciplina de Medicina Baseada em Evidências, Escola Paulista de Medicina (EPM), Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
Rachel Riera, MD, MSc, PhD. Professora associada, Escola Paulista de Medicina (EPM), Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
COMO CITAR: Ribeiro IF, COC Latorraca, Ho D, Riera R. Revisões sistemáticas vivas. Estudantes para Melhores Evidências (EME) Publicado em 18 de maio de 2026. Disponível em: [colar link]. Acessado em [dia, mês e ano].
REFERÊNCIAS
- Elliott JH, Turner T, Clavisi O, Thomas J, Higgins JP, Mavergames C, Gruen RL. Living systematic reviews: an emerging opportunity to narrow the evidence-practice gap. PLoS Med. 2014 Feb 18;11(2):e1001603.
- WHO. Bridging the ‘‘know-do’’ gap: meeting onknowledge translation in global health. 2005. Geneva:World Health Organization. Disponível em: https://www.measureevaluation.org/resources/training/capacity-building-resources/high-impact-research-training-curricula/bridging-the-know-do-gap.pdf. Acessado em 18 de maio de 2026.
- Grimshaw JM, Eccles MP, Lavis JN, Hill SJ, Squires JE. Knowledge translation ofresearch findings. Implement Sci. 2012;7: 50.
- Riera R. Revisões Sistemáticas vivas: como elaborar evidências em tempo real. II Congresso da Rebrats, 18 de jul. de 2022 Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=z_SNH-ALu4s&list=PL3cIB8-yT2inoiB3yUnuAO-jbyLd67C4K&index=12. Acessado em 18 de maio de 2026.
- Sampson M, Shojania KG, Garritty C, HorsleyT, Ocampo M, et al. Systematic reviews can be produced and published faster. J Clin Epidemiol.2008;61: 531–536.7.
- Bragge P, Clavisi O, Turner T, Tavender E, Collie A, et al. The global evidencemapping initiative: scoping research in broadtopic areas. BMC Med Res Methodol.2011; 11: 92.8.
- Shojania KG, Sampson M, Ansari MT, Ji J,Doucette S, et al. How quickly do systematic reviews go out of date? A survivalanalysis. Ann Intern Med.2007;147: 224–233.
- Kahale LA, Elkhoury R, El Mikati I, Pardo-Hernandez H, Khamis AM, Schünemann HJ, Haddaway NR, Akl EA. Tailored PRISMA 2020 flow diagrams for living systematic reviews: a methodological survey and a proposal. F1000Res. 2021 Mar 8;10:192. doi: 10.12688/f1000research.51723.3. PMID: 35136567; PMCID: PMC8804909.
- Cascio J. Facing the aging of caos.2020. Disponível em: https://medium.com/@cascio/facing-the-age-of-chaos-b00687b1f51d. Acessado em 27 de setembro de 2022.
- Guidance for the production and publication of Cochrane living systematic reviews: Cochrane Reviews in living mode. Version December 2019. Disponível em: https://community.cochrane.org/sites/default/files/uploads/inline-files/Transform/201912_LSR_Revised_Guidance.pdf. Acessado em 18 de maio de 2026.