7 de abril de 2026
CONTEXTO
Estudos com resultados positivos tendem a ser publicados mais facilmente e mais rapidamente do que estudos com resultados negativos [1]. Quando isso acontece (ou seja, quando os resultados dos estudos publicados diferem dos resultados dos estudos que não foram publicados), pode ocorrer uma compreensão tendenciosa de um assunto ou tema específico.
VIÉS DE PUBLICAÇÃO
O viés de publicação ocorre quando um estudo é publicado com base na direção e força dos seus resultados, e não com base no seu desenho, relevância da pergunta ou na sua qualidade metodológica [2].
Estudos mostrando diferenças estatisticamente significantes entre os grupos, principalmente quando um tratamento novo apresenta resultados melhores, ou estudos mostrando correlações entre variáveis, tendem a ser vistos como mais interessantes e são publicados com mais facilidade do que estudos em que não foram observadas diferença entre as intervenções ou correlação entre as variáveis [3]. Porém, a publicação de todos os achados é essencial para a interpretação do cenário geral das informações sobre um campo de pesquisa [4].
O viés de publicação pode estar atrelado ao viés de relato seletivo dos desfechos, já que existe a possibilidade de o próprio autor omitir os resultados negativos de alguns desfechos e seguir apenas com a publicação dos resultados favoráveis.
EXEMPLO DE VIÉS DE PUBLICAÇÃO
Um exemplo do viés de publicação são os estudos sobre o antidepressivo reboxetina. Muitos ensaios clínicos que não apresentaram resultados favoráveis para a reboxetina não foram publicados. Os dados publicados superestimavam a eficácia da reboxetina em relação ao placebo e subestimavam seus efeitos adversos. Foi somente depois de anos após a introdução desse antidepressivo que os dados não publicados foram acessados, constatando-se a ineficácia da reboxetina [5].
IMPACTOS DO VIÉS DE PUBLICAÇÃO
- Não publicação de um estudo relevante: seja porque a revista científica não tem interesse em resultados negativos, seja porque os próprios autores desistem de tentar publicar seus achados [6];
- Pode comprometer a interpretação de um cenário inteiro pela falta de informação disponível: a dificuldade de encontrar estudos com resultados negativos pode influenciar profissionais a utilizar uma terapia ou droga, pois foram levados a acreditar que seria a melhor opção para seus pacientes [6];
- Desperdício de recursos investidos em pesquisa: ao não publicar um trabalho, investimentos em dinheiro, tempo e dedicação são perdidos [7].
COMO EVITAR O VIÉS DE PUBLICAÇÃO
Em primeiro lugar, existe a necessidade de se combater a percepção cultural de que resultados negativos ou nulos são ruins, porém mudanças culturais levam tempo.
Enquanto isso, é possível aderir às políticas de relato de resultados das bases de registros de protocolos: algumas bases, como o clinicaltrials.gov, International Clinical Trials Registry Platform (ICTRP) e Registro Brasileiro de Ensaios Clinicos (ReBec) oferecem espaços estruturados para que os pesquisadores relatem seus resultados [6]. Além do mais, essas bases são úteis para identificarmos estudos que não foram publicados. Se o protocolo de um estudo está registrado e, todavia, não é possível localizar os resultados desse estudo na íntegra, pode ser que exista viés de publicação sobre o tema.
Adicionalmente, autores de revisões sistemáticas precisam estruturar buscas por estudos não apenas em revistas indexadas nas grandes bases, como MEDLINE e Embase [6]. Outras formas de encontrar estudos, e que podem ajudar a afastar o viés de publicação, são anais de congressos, revisar listas de referências de estudos já conhecidos, bases menores específicas por assunto, bases de literatura cinzenta, agências regulatórias, bases de registro de protocolos, bases preprint e, também, entrar em contato com autores ou especialistas da área.
Uma forma de avaliar se o viés de publicação afetou os resultados de uma revisão sistemática são os testes estatísticos. O mais conhecido e utilizado em revisões sistemáticas é o gráfico de funil, porém ele só pode ser usado quando pelo menos dez estudos são incluídos em uma mesma metanálise [6].
CONCLUSÃO
Estudos com resultados desfavoráveis ou nulos são tão importantes para a compreensão de uma condição clínica quanto os com resultados favoráveis. A dificuldade de publicar resultados desfavoráveis é chamada de viés de publicação.
Enquanto uma mudança cultural que valorize os resultados desfavoráveis não ocorre, os autores dos próprios estudos precisam pensar em alternativas para tornar seus resultados disponíveis e os autores de revisões sistemáticas precisam buscar estudos para além das grandes bases de dados, além de sempre fazer uma análise de risco de viés de publicação entre os estudos incluídos.
AUTORES
Versão 1- 19/07/2023
Rachel Ornelas. Aluna do curso de Medicina da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF-GV).
Carolina de Oliveira Cruz Latorraca, docente de Saúde Baseada em Evidências do Centro Universitário São Camilo.
Versão 2- 06/04/2026
Daniele Ho, farmacêutica, Disciplina de Medicina Baseada em Evidências, Escola Paulista de Medicina (EPM), Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
Leonardo Y Kasputis Zanini, MD, Preceptor Cirurgia Geral, Departamento de Cirurgia, Escola Paulista de Medicina (EPM), Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Residente em Administração em Saúde, Departamento de Gestão e Economia de Saúde (DEGS), Escola Paulista de Medicina (EPM), Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
Rachel Riera, MD, MSc, PhD. Professora associada, Escola Paulista de Medicina (EPM), Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
Citar como: Ornelas R, Latorraca COC, Ho D, Kasputis Zanini L, Riera R. Viés de publicação. Estudantes para Melhores Evidências. Publicado em: 6 de abril de 2026. Disponível em: [adicionar link da página da web]. Acessado em: [adicionar dia, mês e ano de acesso].
REFERÊNCIAS
- DeVito NJ, Bacon S, Goldacre B. Compliance with legal requirement to report clinical trial results on ClinicalTrials.gov: a cohort study. Lancet. 2020;395(10221):361-369. doi: 10.1016/S0140-6736(19)33220-9. Epub 2020 Jan 17. PMID: 31958402
- Marks‐Anglin A, Chen Y. A historical review of publication bias. Research Synthesis Methods. 2020;11(6):725–42.
- Montori VM, Smieja M, Guyatt GH. Publication Bias: A Brief Review for Clinicians. Mayo Clinic Proceedings. 2000; 75(12), 1284–1288. doi: 10.4065/75.12.1284.
- Joober R, Schmitz N, Annable L, Boksa P. Publication bias: what are the challenges and can they be overcome? J Psychiatry Neurosci. 2012;37(3):149-52. doi: 10.1503/jpn.120065.
- Empirical Comparison of Publication Bias Tests in Meta-Analysis. J Gen Intern Med. 2018 Apr 16;33(8):1260–1267. doi: 10.1007/s11606-018-4425-7. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC6082203/. Acesso em 05/01/2025.
- Catalogue of Bias Collaboration, Devito NJ, Goldacre B. Publication bias. In: Catalogue of Bias 2017. Versão original disponível em: https://catalogofbias.org/biases/publication-bias/. Versão em português disponível em: https://oxfordbrazilebm.com/index.php/vies-de-publicacao/
- Weber EJ. Publication bias begins at home. Emerg Med J. 2019;36(9):518-519. doi: 10.1136/emermed-2019-208857. PMID: 31427471.